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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Pormenores - O inicio?!

Rita caminha até à beira de um rochedo. Senta-se no chão e descalça-se.
Tomás observa-a e caminha lentamente até ela, tentando não a assustar, pois assustado está ele com a simples perspectiva do que ela possa fazer.

Calma e tranquila ela fecha os olhos, relaxando ao som das ondas do mar... Mas ouve passos atrás de si e vira-se. Depara-se com um olhar terno e interrogativo. O seu coração acelera, mas serena ao mesmo tempo. Enquanto se levanta, adopta uma postura defensiva e alerta.

- Sim?! - Pergunta Rita.
- Desculpe, não a queria assustar, mas não podia ir-me embora sem perceber se precisava de ajuda.

Rita sorri. "O sorriso mais terno e sincero... o mais bonito que me lembro." - Pensa Tomás - "Até os olhos sorriem!"

- Sim. Quer dizer... não! - Rita cora com o embaraço e baixa o seu olhar para os pés descalços. - Eu estou bem. Vim parar aqui por acaso, e aproveitei para descomprimir.

Desta vez é Tomás que sorri. Os olhos esverdeados tomam uma cor viva em contraste com a pele morena.
- Fico mais descansado. Assim sendo, deixo-a a sós. Nota-se que precisa. - Começa a afastar-se admirando o mar, mas não o vendo.

Tem apenas uma imagem na sua mente: o sorriso e olhar envergonhado, daquela bela mulher.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Pormenores - O sorriso

Foi o sorriso dela que lhe chamou a atenção. Não era exuberante, nem feliz. Era confiante e de vitória, mas não lhe iluminava o rosto, não lhe chegava aos olhos.

Tomás perguntou-se o que faria aquela mulher solitária na falésia?!

Sentado na sua kawasaki ninja e protegendo o seu olhar, indiscreto, com o capacete escuro, viu-a sair do carro e fechar os olhos no instante em que o vento a ajudava a soltar os longos cabelos dourados.

Não era uma mulher de arraso, nem propriamente daquelas que, normalmente, o fariam olhar para trás à sua passagem. Mas algo nela o fez caminhar para mais perto do abismo, só para poder memorizar aquele rosto de pele leitosa e olhos de mel.

Recriminou-se por não ter consigo a sua máquina fotográfica... Tudo o que queria era conseguir eternizar aquela imagem que o desconcertara.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Confrontações

Ela percorre o caminho sem direcção definida. O telemóvel continua a tocar, mas ignora-o numa tentativa de manter a calma e controlar-se.
Sai da autoestrada e entra numa nacional que não conhece, mas que acompanha a linha do mar.

Pára junto de uns penhascos e desliga o carro, enquanto encosta a cabeça ao volante. Sente-se exausta e deprimida. Mas quando o toque do telemóvel volta a irromper o silêncio ela sussurra:

- Não. Ela não voltará a incomodar-me. CHEGA!!!

Agarra no telemóvel e demonstrando calma e tranquilidade na voz, algo que foi treinando no exercício da sua profissão, atende:

- O que queres Madalena?
- Saber como estás?! - Sussurra uma voz adocicada do outro lado da "linha".
- Estou óptima! Mesmo depois de me teres tentado tirar trabalho, consigo sorrir e ganhar batalhas.
- Oh Rita!! Nunca foi minha intenção deixar-te assim... Só queria ajudar-te.
- Ah... Ainda por cima admites que tudo não passou de mais um dos teus esquemas...
- Eu não disse nada disso. - Grita Madalena

- Não percas a pose, não vale a pena. Não comigo. Só quero dizer-te mais uma coisa, aproveitando o teu telefonema, quero os dois milhões de euros, depositados na conta da minha cliente na próxima terça-feira. Nem mais um dia!
- Como?
- Sim, é como ouviste. Cheguei a acordo com o teu cliente. - Rita esboça um sorriso

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Pormenores

Depois de uma semana infernal, ela sente-se como se tivesse trabalhado durante um mês. Ao fechar a “tampa” do portátil, encosta-se à cadeira e tenta relaxar.

- Acabou! – Foi o primeiro e único pensamento que o seu cérebro conseguiu processar.

Com o rosto a ser banhado pelo sol, deixa que os músculos relaxem e que a sua mente se liberte. Tenta lembrar-se de pequenos pormenores do seu quotidiano, mas constata que tem vazios que não consegue preencher.Não se recorda de ir a casa, de falar com os amigos e a família, não se recorda qual foi a última refeição que tomou.

Suspira. Agarra na mala e no portátil, mas a pasta do trabalho fica no mesmo sitio onde a colocara quando chegara da conservatória. Tinha sido difícil conseguir levar a bom porto um divórcio “amigável”, só para evitar a barra do tribunal. A sua cliente precisa dela para tudo, telefonava-lhe até para decidir qual a cor do verniz que há-de aplicar nas unhas.

Ao sentar-se atrás do volante, um ténue sorriso desenha-se-lhe nos lábios. Enquanto conduz, em pleno estado de dormência e descontracção, sente todo o stress e fadiga a libertar o seu corpo.

Trauteia o último sucesso de Rita Guerra “Pormenores sem a mínima importância”, mas o toque do telemóvel apanha-a desprevenida.

O coração dispara, as mãos suam, o corpo é percorrido por arrepios e suores frios…

- Atendo?! Ou não atendo?! – O dilema consome-a e o cérebro processa dados a 1000 à hora.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Imaginar

O velho bichinho da imaginação tem batido à porta, e hoje deixei-o entrar:

Para quem sempre viveu no campo, rodeada de serras e planícies; pinheiros e sobreiros; searas e flores silvestres, a proposta de emprego junto ao mar parecia um sonho.
Quando era pequena, e o sono não chegava, deixava o pensamento voar até imagens que lhe tinham sido mostradas por livros, fotografias ou pela televisão.

Uma coisa que sempre a havia fascinado era o mar. A sua força, grandiosidade, beleza... a imensidão de espécies que alberga...
Fora contratada para preservar um velho farol construído numa falésia, na costa alentejana. Ao aceitar a proposta sabia que a solidão seria a sua companheira, por isso levou consigo os seus bens mais preciosos: os livros, o computador e a máquina fotográfica.

Aos poucos encontrou a sua rotina e cada vez mais foi apreciando a vida solitária de um faroleiro. Os anos foram passando e ela sorria com o passar das estações do ano. Levava a caneca de café aos lábios e, enquanto observava o feixe de luz iluminar, intermitentemente, o mar recordava:

- As noites de primavera onde o mar se tornava tranquilo. Onde os dias se tornavam maiores. Onde as cores ganhavam vida.

- As noites de verão onde o mar era invadido por barcos repletos de turistas. Onde muitos curiosos se aproximavam da casa, só para desvendar o mistério da vista da torre. A chegada das marés vivas que revelavam a força e imponência da natureza.

- As noites de outono onde o mar deixava de ser azul e passava a um esverdeado esmeralda, em contraste com o cinzento do céu.

- As noites de inverno onde as vagas se tornavam altas e raivosas, onde o mar se transformava num animal enfurecido.

Ao logo do tempo as fotografias captadas serviam de diário, pois, muitas vezes, os sentimentos são mais bonitos quando se revelam em imagens e não em palavras.


(Farol de uma praia em aveiro - Agosto 2007)