A semana passada a Ana C. lançou um desafio aos seus leitores: que contássemos a nossa história de amor. Eu já tive algumas histórias de amor, mas com o aproximar do dia de hoje lembrei-me de alterar um bocadinho o desafio e decidi contar uma parte da história da minha vida.
Como alguns dos meus leitores já sabem, este não é o meu primeiro blog. Foi aqui que descrevi o que se passou naquela altura. Muitas vezes com a cabeça quente e com o coração apertado pelo medo e pela angustia.
Foi há quatro anos. Fui operada a um quisto no ovário direito.
Tinha 19 anos. Acabada de entrar na faculdade, numa cidade a 334 km de distância, decidi que teria de fazer um check up antes de ir para Mirandela.
Decido ir à minha primeira consulta de ginecologia. Os atrasos na menstruação, as dores horríveis e as hemorragias não me deixavam confortável ao ir para tão longe, pois chegava mesmo a não conseguir levantar-me sozinha da cama.
Decidi ir sozinha. Depois da primeira consulta a médica marca-me uma ecografia, à qual fui novamente sozinha, pois achava que era um procedimento normal. Mal começo o exame o médico pede à assistente que chame a médica para ver algo no ecrã.
A médica entra na sala e começa a fazer uma pressão enorme sobre a minha barriga, causando-me dores insuportáveis, de tal modo que não consegui suster as lágrimas.
“Tem tamanho cirúrgico, chamem a T. (minha mãe). Ela que venha já!”
Não houve um único olhar na minha direcção, um único gesto, uma única pergunta. Diagnosticou-me cancro no ovário. O mundo desabou sobre nós. Era a segunda vez que teria de ser operada.
Tal como contei aqui, não me contentei com o diagnóstico dela, pesquisei na net e exigi aos meus pais ouvir outras opiniões. Tomei a pílula durante quatro meses, ininterruptamente. No dia 2 de Março de 2005, foi-me diagnosticada Endometriose.
Fui operada no dia 15 de Abril de 2005, no hospital Cuf Descobertas em Lisboa. Fui operada usando a técnica da Laparoscopia, uma cirurgia, efectuada através de quatro incisões na barriga. Esta cirurgia permite retirar o quisto e eliminar, através de laser, vaporização de alta frequência ou bisturi eléctrico, todos e quais quer potenciais focos da doença.
Foi-me retirado um quisto de 8cm, não originado pela Endometriose. As únicas marcas que ficam da cirurgia são as pequenas incisões que foram feitas. As dores acalmaram, as cólicas, a forte hemorragia.
Continuo a tomar a pílula por prevenção. Faço a revisão anual e até agora está tudo normal. Passaram-se quatro anos.
O meu objectivo com este post não é fazer-me de coitadinha, é alertar as mulheres, as jovens e as suas famílias para não aceitarem automaticamente a primeira opinião que vos é dada.
Actualmente só falo com a médica que me diagnosticou cancro, quando estritamente necessário e por motivos profissionais. Os meus pais respeitam a minha decisão, mas ainda tentam que eu a “perdoe”, coisa que não sou capaz. Se não me tivesse insurgido quanto aquilo que ela me disse, teria uma cicatriz enorme na barriga e não apenas três furos que mal se notam.
Tenho imensos comentários nos posts linkados. Conheço mulheres que conseguiram engravidar e que hoje têm os seus filhos, porque ao lerem os posts, que eu fiz na altura, pediram segundas opiniões e conseguiram superar a doença.
Sinto-me feliz por poder ajudar os outros. É esse o meu objectivo.